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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

AMAN, democracia de guetos e a Caverna de Platão

            Editorial do blog "No Q.A.P"
            Marcelo Anastácio

           É muita tristeza e perplexidade que publicamos a notícia da morte cerebral do cadete Gama, que cursava o terceiro ano no curso da AMAM-Academia de Militares Agulhas Negras. Fico imaginando a sensação dos pais, que se dedicam para formar o filho, dar-lhe dignidade, profissão condizente, entrega o filho são, lúcido, cheio de vida e o recebe morto, num caixão decorado. Ainda no campo da emoção como fica a cabeça daqueles que sobreviveram ao assédio moral e a tortura psicológica e física, pratica pelo instrutor? E as esperanças do Gama, a juventude, os planos de vida, pra onde vão? Nem um trilhão de libras-esterlinas hão de pagar.

          Racionalmente, tentando analisar o caso, vemos um enorme esforço da senhora ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, senhora Maria do Rosário, em obter apoio dos ex-ministros desta secretaria, na tentativa de se criar a "Comissão da Verdade", visando "dar nomes aos bois", sobre os acontecidos durante a ditadura militar. Muitos morreram, muitos são idosos, e muitos ainda têm as costas largas. Por isso, a tentativa é inócua. 

        O que o ministério deve apurar são os vários abusos, comuns dentro dos quartéis e que resultam em mortes, principalmente nos cursos de formação, onde o candidato se submete ao instrutor, almejando a formatura, e sob condições desumanas acaba morto. Daí sempre aparecem alguns dinossauros que dizem: "ninguém foi te chamar em casa, você é que veio até o quartel, então tem que se enquadrar dentro das ordens". Essa pedagogia militar está errada, falida e deveria ser desmoralizada pelos órgãos de fiscalização. Mas, afinal, quem conhece a rotina de um quartel, principalmente no curso de formação? OAB, Direitos Humanos, Imprensa? Nem a família do militar, pois, se conhecessem não deixariam o filho ou parente se submeter aos abusos. Uma coisa é instruir, educar, orientar, a outra é exigir algo que o ser humano não é capaz de resistir, e se o aluno militar não resiste, imagine o militar formado adotando o mesmo procedimento com o civil?

         As instituições são maiores que os homens ou deveria ser o contrário? Em nome de um suposto status de rigor vão matar mais quantos alunos militares nos cursos de formação?
          
          A democracia tem que ser plena e comum, não privilégios de alguns. Não podemos ver os militares com o resquício da época da ditadura. Os antropólogos, as ong's tem que fazer parte das comissões pedagógicas, juntamente com o Ministério Público, OAB, órgãos da imprensa. Afinal, se não há nada de errado na condução do curso, então não há o que se esconder.  

           Os militares em curso vivem a "Caverna de Platão", no sentido inverso, pois saem da luz, do aconchego familiar e descobrem o terror, o assédio, o crime, o medo, a morte. Essa é a "democracia de guetos", AMAN tem a sua, o Congresso outra, o judiciário, a igreja...e por ai vai...

            Marcelo Anastácio