DEPOIS DA GREVE, O CARNAVAL ***
Vitória da democracia ou paz romana?
A greve de policiais militares pôs em risco a maior festa popular do país. Com a rendição de grevistas em Salvador e prisão de líder no Rio de Janeiro, assegurou-se o Carnaval. Mas o que ainda nos preocupa é se assistimos a uma vitória da democracia ou a uma paz romana. O filósofo Immanuel Kant, escrevendo sobre a paz perpétua, radicalizou o problema da paz ao afirmar que não devemos considerar válido um tratado de paz que deixe sementes para a renovação da guerra. E mandou bem: porque não existe apenas a guerra injusta, existe a paz injusta.
Um tipo de paz injusta – porque unilateral – consagrou-se no vocabulário político na expressão paz romana, definida pela enciclopédia virtual como “um dos pilares da civilização romana e da sua difusão e implantação no mundo antigo, responsável pela ordem, tranquilidade, cumprimento da lei e, acima de tudo, da obediência e culto ao imperador”.
Sustento, com preocupação, que assistimos a uma espécie de paz romana, operada pelo poder da mídia usado com meios ilícitos pela Rede Globo de Televisão. Essa paz injusta enfraquece nossa ainda frágil e jovem democracia e é por natureza transitória. Talvez não se aguente muito além da Quarta-Feira de Cinzas.
Mas que paz é essa e como se chegou lá?
O “bolo do general”
A deixa para a Rede Globo de Televisão legitimar-se como tutora das nossas liberdades foi o episódio do bolo de aniversário oferecido pelos grevistas ao comandante da força nacional de segurança em Salvador. O núcleo do problema, interpretado por Elio Gaspari como “caquético e subversivo”, foi ter declarado o general que “não poderá haver confronto entre os militares”. Segundo o justamente celebrado historiador da ditadura militar, esse ato seria subversivo porque “atropa do Exército é mobilizada para exercer um efeito dissuasório. [e] O discurso do general e a cena do bolo transformaram o poderio militar em alegoria carnavalesca” (Elio Gaspari, “General do povo, não” na Folha de S.Paulo, 12/2/2012).
Mas a interpretação de Gaspari é injusta e perigosa.
O Exército não opera – na normalidade democrática – como agente de “efeito dissuasório” nos conflitos sociais, pois estes devem ser resolvidos pelos poderes civis. A vocação constitucional das Forças Armadas impõe-lhes o dever de prontidão para o resguardo da ordem pública, em estrita obediência à iniciativa dos poderes constituídos. Convocar para a prontidão é diferente de delegar, ao Exército, a mediação do problema. Nesse contexto, a conduta do general parece adequada à normalidade. Não se devem tirar palavras de suas circunstâncias. O verbo poder pode ser interpretado como reforço na busca da paz, no sentido de que não deve haver confronto.Continue lendo no Blog do Capitão Assumção:>>>>>>>>