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domingo, 15 de abril de 2012

Abaixo a ditadura do gancho

Há quem diga que a imprensa vive sob a ditadura dos prazos, dos dead-lines (os horários de fechamento), principalmente com a aceleração alucinada das notícias em tempo real. Costuma-se debitar os erros, as omissões, as trapalhadas e os equívocos que custam dilacerações brutais à dignidade e à honra alheias na conta da falta de tempo que impede apuração mais criteriosa.

Tudo isso é verdade. Mas existe uma outra ditadura que pode ser mais perigosa do que a ditadura do dead-line: é a ditadura do gancho. Em jornalismo, “gancho” é o fato que justifica a realização e publicação de matéria ou reportagem. Só pra exemplificar: só se justifica a publicação de matéria sobre o preço do bacalhau perto da Semana Santa, quando o produto é mais consumido. Senão ninguém presta atenção.

No momento em que se noticia a tragédia do Rio de Janeiro convém publicar matéria sobre as providências que não foram tomadas para evitar a catástrofe. É da natureza da imprensa trabalhar sobre os fatos que estão na ordem do dia. Se não existem fatos, a gente busca as efemérides – os fatos programados, datas comemorativas, que salvam pauteiros.

Até hoje fomos incapazes de fazer a nossa parte no que diz respeito à antecipação dos problemas, no apontamento dos riscos, na previsão das tragédias. Noutras palavras: não temos tido a coragem de enfrentar a ditadura do gancho. De todos, talvez o jornalismo antecipatório seja o mais importante, mas ainda é o mais negligenciado.

Raramente jornalistas publicam matérias sobre os riscos disso ou daquilo. Não cabe a desculpa de que os espaços os jornais e das emissoras de rádio e TV estavam ocupados com matérias sobre o que estava na pauta da ordem do dia. Conversa. Toda redação tem crise de pauta. E é nelas que as abobrinhas (que os calhaus, como dizemos em nosso jargão) entopem as páginas.

Calhau é parte de nosso comodismo. E ela é produto dessa ditadura a que nos sujeitamos, de raramente olharmos para o problema antes que ele cause o estrago. Como escreveu o professor e jornalista Luiz Martins num artigo brilhante publicado no portal da UnB, “Meteorologistas e jornalistas têm algo em comum, ler o mundo e interpretá-lo: de preferência, antes que o terremoto aconteça e os tsunamis devastem tudo.

Pois dizer para quem já está arrasado que houve uma tragédia é zombar da inteligência das vítimas”. Lamento, coleguinhas, mas tenho de escrever com todas as letras: não temos feito outra coisa. E mais: ou temos criatividade e coragem para romper com a ditadura do gancho ou essa situação não vai mudar nunca.


Paulo José Cunha
Jornalista e professor de comunicação

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Imprensa mundial aborda segurança no carnaval e Olimpíada com greve no Rio

Cristiane Salgado - Estadão.com.br
'Guardian' aponta temor pelo cancelamento ou segurança durante o carnaval do Rio - ReproduçãoSÃO PAULO - A greve dos policias e bombeiros do Rio de Janeiro iniciada na madrugada desta sexta-feira, 10, repercutiu na imprensa internacional, que destacou a proximidade do início do carnaval. 

Reprodução
'Guardian' aponta temor pelo cancelamento ou segurança durante o carnaval do Rio.
 
Para o 'New York Times', a greve ameaça "a festa mais importante do país: o carnaval". O jornal norte-americano lembra a polêmica em torno dos altos salários do Judiciário e fala na "grande discrepância de pagamentos no setor público".

O jornal britânico 'The Guardian' afirma que "as preparações carnavalescas foram ofuscadas pela greve policial", acrescentando que as "autoridades temem uma onda de violência". Para o veículo, o carnaval é uma melhores festas de ruas no mundo, com quatro dias de celebrações que atraem milhões de pessoas.

O 'The Washington Post' relatou que o salário dos oficiais do Rio estão entre os mais baixos no País. O jornal ainda ressaltou que "a polícia no Brasil, particularmente no Rio, tem sérios problemas de corrupção".

De acordo com a rede norte-americana CNN, a greve policial "levanta preocupações sobre a habilidade do Brasil em prover segurança" em cidades - Rio de Janeiro e Salvador - que sediarão os jogos olímpicos e a Copa.

O espanhol 'El País', assim como a CNN, destacou a preocupação com a segurança no Rio de Janeiro, que abrigará as Olimpíadas em 2014. Segundo o jornal espanhol, apesar da política de pacificação nas favelas ser um avanço, "a cidade está rodeada de subúrbios onde a violência segue com muita força".

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Abaixo a ditadura do gancho


Há quem diga que a imprensa vive sob a ditadura dos prazos, dos dead-lines (os horários de fechamento), principalmente com a aceleração alucinada das notícias em tempo real. Costuma-se debitar os erros, as omissões, as trapalhadas e os equívocos que custam dilacerações brutais à dignidade e à honra alheias na conta da falta de tempo que impede apuração mais criteriosa.
Tudo isso é verdade. Mas existe uma outra ditadura que pode ser mais perigosa do que a ditadura do dead-line: é a ditadura do gancho. Em jornalismo, “gancho” é o fato que justifica a realização e publicação de matéria ou reportagem. Só pra exemplificar: só se justifica a publicação de matéria sobre o preço do bacalhau perto da Semana Santa, quando o produto é mais consumido. Senão ninguém presta atenção.
No momento em que se noticia a tragédia do Rio de Janeiro convém publicar matéria sobre as providências que não foram tomadas para evitar a catástrofe. É da natureza da imprensa trabalhar sobre os fatos que estão na ordem do dia. Se não existem fatos, a gente busca as efemérides – os fatos programados, datas comemorativas, que salvam pauteiros.
Até hoje fomos incapazes de fazer a nossa parte no que diz respeito à antecipação dos problemas, no apontamento dos riscos, na previsão das tragédias. Noutras palavras: não temos tido a coragem de enfrentar a ditadura do gancho. De todos, talvez o jornalismo antecipatório seja o mais importante, mas ainda é o mais negligenciado.
Raramente jornalistas publicam matérias sobre os riscos disso ou daquilo. Não cabe a desculpa de que os espaços os jornais e das emissoras de rádio e TV estavam ocupados com matérias sobre o que estava na pauta da ordem do dia. Conversa. Toda redação tem crise de pauta. E é nelas que as abobrinhas (que os calhaus, como dizemos em nosso jargão) entopem as páginas.
Calhau é parte de nosso comodismo. E ela é produto dessa ditadura a que nos sujeitamos, de raramente olharmos para o problema antes que ele cause o estrago. Como escreveu o professor e jornalista Luiz Martins num artigo brilhante publicado no portal da UnB, “Meteorologistas e jornalistas têm algo em comum, ler o mundo e interpretá-lo: de preferência, antes que o terremoto aconteça e os tsunamis devastem tudo.
Pois dizer para quem já está arrasado que houve uma tragédia é zombar da inteligência das vítimas”. Lamento, coleguinhas, mas tenho de escrever com todas as letras: não temos feito outra coisa. E mais: ou temos criatividade e coragem para romper com a ditadura do gancho ou essa situação não vai mudar nunca.
Paulo José CunhaJornalista e professor de comunicação


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