Numa boa, quem dá trote na PM tinha que tomar uns bons tapas, e ser preso, sem mais.
Reprodução da capa do jornal Extra.
Reprodução do Extra on line
A Tijuca parou por três horas e meia, em 13 de abril de 2010, para acompanhar o desfecho de assalto com reféns em um prédio na Rua Henry Ford. Naquela manhã, dois telefonemas para o serviço 190, da Polícia Militar, mobilizaram cem policiais, 12 veículos e atiradores do Bope. Tudo isso a troco de nada: não havia bandidos nem reféns. Um nada que saiu por cerca de R$ 10 mil, gasto estimado com a operação desencadeada pelo trote — apesar do custo, apenas mais um entre as centenas que são passados todos os dias para a polícia, a um custo que, este ano, deve passar dos R$ 22 milhões. Entre 1 de janeiro deste ano e as 10h do último dia 19, foram 57.196 trotes recebidos pelo serviço 190, uma média de um a cada seis minutos, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Projetando-se para todo o ano de 2011, os trotes chegariam a 90.621.
Como o atendimento a cada trote custa pelo menos R$ 250 — segundo levantamento do serviço 190 para o deslocamento de dois policiais, em um carro, por 5 quilômetros —, as falsas ocorrências deverão custar R$ 22,6 milhões aos cofres públicos. O valor é suficiente para construir cinco batalhões nos moldes do de Irajá, que custou R$ 4,2 milhões, ou alugar, por 60 meses, 69 carros para a PM.
O número elevado de trotes passados este ano ao atendimento do 190 também teve o dedo incansável de uma idosa moradora de Inhaúma, já conhecida pelas atendentes. Desde 1º de janeiro — quando fez a primeira das 1.032 ligações registradas até o princípio deste mês — foram quase cinco telefonemas por dia.
Nos pedidos de socorro, que geraram 84 ocorrências policiais, sempre informa que “estão forçando o portão de sua casa”.
— Dizem que ela tem problemas psicológicos. De tanto ligar, ficou conhecida entre os policiais do batalhão do bairro, que já nem enviam mais viaturas, por se tratar de trote — conta uma atendente, que não pode se identificar, por norma do serviço.
Segundo o major Clayton de Goés Bandeira, coordenador de qualidade do serviço 190, são feitas aproximadamente 20 mil ligações por dia para a PM. Destas, cerca de 1% são trotes.
— Ocorrências com o apoio de outras unidades podem custar R$ 5 mil ou R$ 10 mil — explica ele, lembrando que os 188 atendentes fazem perguntas-chave a quem ligou, na tentativa de identificar trotes.
Além dos trotes — que, por definição, geram um atendimento da PM —, outra praga assola o 190: as ligações indevidas, como são chamados os telefonemas onde desocupados despejam gracinhas.
Segundo o major Bandeira, são 5.600 ligações diárias desse tipo, o equivalente a 29% do total de atendimentos. Cerca de 95% delas são de homens, que, em geral, assediam as atendentes ou falam de sexo. Já as mulheres ligam procurando alguém para conversar, e as crianças costumam ligar no horário de entrada ou saída da escola.
O governador Sérgio Cabral sancionou, em 16 de julho de 2010, a Lei 5.784, do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), que determina: quem acionar indevidamente esses serviços terá o custo cobrado na conta de telefone.
— É uma forma de educar e coibir quem faz isso. Mas, para valer, as corporações têm que informar o valor dos custos, o que ainda não fizeram — diz o parlamentar.
Blog do Ricardo Gama